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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Vício

Pela primeira vez vejo o vírus se desenvolver fora do meu organismo. Desde os 5, 6 anos de idade que desenvolvo essa doença, esse vício. Duas décadas depois, acompanhei as manifestações numa criança (que não eu) desde a mais tenra primavera até os 10 anos.

Meu afilhado é viciado em futebol.  E colorado. E joga bola o dia todo. E agora começa a alternar turnos: Quando não está jogando, está vendo jogos. Quando não está jogando ou vendo jogos, está vendo programas sobre. E agora também está LENDO sobre.

Meu presente de natal pro piá foi o baita livro do Ziraldo sobre a história do Inter. Maravilhosamente bem ilustrado, muito bem escrito e com informações corretas, o livro é tão bala que me arrependi de não ter comprado dois exemplares. Mas meu afilhado já leu! Pegarei emprestado em breve...

Hoje é dia de estreia de temporada. Verei o jogo com o guri. Mais uma alma consumida pelo jogo. Mais uma mente entorpecida pelo esporte. Ainda bem!


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sobre ídolos e decepções

O Campeonato Brasileiro de Futebol é podre. Em diversos aspectos. Arbitragem, dirigentes, entidade organizadora, monopólio de transmissão, preço dos ingressos, segurança, entrega de jogos, punições disciplinares, etc.

Quem escreve isso é um torcedor do Sport Club Internacional, três vezes campeão desta competição, uma de forma invicta. E “na fila” pela taça nacional há 31 anos. Então tá explicado. “Só reclama porque não ganha, se fosse campeão diria que era o melhor campeonato do mundo”.

Pior que não.

Não conseguiria, por exemplo, achar legal ver meu time entregar um jogo para prejudicar o maior rival. Ou torcer contra o meu próprio time. Não comemoraria da mesma maneira um título claramente manchado pelo tapetão. Não acharia normal (ou pior, adoraria) que uma série de eventos fosse acobertada pela mídia em benefício de alguns clubes.

Já tive ídolos no futebol. Ídolos colorados, ídolos da Seleção Brasileira, ídolos de outros países. Mesmo sabendo parcialmente de como funcionava a maquinária futebolística (na infância o contexto escapa facilmente), aqueles caras vestindo uniformes pareciam flutuar acima de qualquer pequeneza mundana. Organizações, corporações, patrocinadores, empresas de material esportivo, doping, mulheres, carros, transações, direitos federativos... isso deveria ser nada comparado ao fato de que aqueles homens foram escolhidos para praticar o esporte que nós amamos. Amamos odiar muitas vezes, mais ainda assim amamos. Ou amávamos.

Hoje enxergo camisetas e escudos. Não há rostos ou pessoas. Apenas uniformes históricos de clubes gigantescos, com seus ídolos e torcedores do passado, que insistem em resistir. E mesmo nas arquibancadas não há muitos destes torcedores. Para cada 20 mil brancos de classe média com seus filhos, esposas e carros de classe média, há 10 torcedores de futebol. Para cada 2 mil pré e pós adolescentes drogados (e brancos) nas torcidas organizadas, há 5 torcedores idosos, meio embriagados e nos setores mais baratos dos estádios. Que nem existem mais.

Meu afilhado está prestes a completar o álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro 2010. Tenho vontade de ensinar para ele quem foram Andy Hug, Rickson Gracie, Don Frye, Fedor Emelianenko, ao invés de Pelé, Beckenbauer, Garrincha, Maradona, Cruyff... Acho que ele teria menos decepções quando adulto.

terça-feira, 23 de março de 2010

Jealous Guy


A paixão e o amor andam de rostinhos colados e braços dados com a inveja e o ciúme. Quanto maiores os dois primeiros sentimentos, mais difícil de controlar os dois últimos.

Jogadores de futebol estão para nossa relação de amor com nossos times de coração, como cunhados estão para namoros. Tu até quer gostar daquele cara, mas infelizmente ele faz coisas inomináveis com tua irmãzinha.

Neste verão, dois casos foram notórios para entender o mecanismo de ódio que o torcedor “moderno” nutre por aqueles que deveriam ser ídolos, e acabam transformando-se em parias sociais: Walter e Adriano.

Quem acompanha futebol foi bombardeado por notícias desses dois rapazes de origem humildade, de salários fora da realidade do Zé Povinho e de futuro tão incerto quanto o de qualquer um de nós.

Pro senso comum, Walter é apenas um bom jogador, com problemas de peso, superestimado pela mídia, que ganha abusivos 15 mil reais a cada trinta dias, tendo pouco mais de 18 primaveras somadas na identidade. É considerado burro, ignorante, retirante nordestino que não consegue se enquadrar na normalidade do sul (Minas para baixo), de um trabalhador normal.

Adriano seria uma extensão de Walter, só que com mais de 25 anos, mais talento comprovado e muito mais verdinhas na conta bancária. É visto como um craque desperdiçado por influência de más companhias, falta de comprometimento com a vida de trabalhador do futebol e principalmente pelos Euros, que subiram a sua cabeça. “Tinha tudo pra ser um dos melhores do mundo, mas não adianta...”, alguém já disse isso perto de ti. As reticências silenciosas querem dizer “... mas é FAVELADO e preto”.

Todos estes conceitos são propagados por nós, classe média consumidora do esporte número um do mundo. E o que há por trás destas verdades magnânimas e imutáveis? A mais pura inveja, que nutrimos por estes jovens que ganham dinheiro para chutar bolas pelos gramados do planeta. Se eu treinasse todo dia jogava melhor que eles, alguns dizem. Só fazem isso da vida e ainda reclamam, bradam outros. Pra jogar pelo (insira o clube da sua preferência), jogava até de graça, e ainda assim corria mais que esses desgraçados, insultam milhares.

No fundo dizemos isso pela total incapacidade de estar na posição daqueles que deveriam ter nosso apoio.

Esse sentimento assusta. Pelo simples fato da esmagadora maioria dos jogadores de futebol do Brasil saírem da condição de pobres, iletrados, oprimidos, desfavorecidos de oportunidades melhores na vida, enfim, CRUCIFICADOS PELO SISTEMA, mereceriam nossa mais devota simpatia. Mas não. Eles abandonam nossos clubes ao menor sinal de proposta do exterior, nós enchemos a boca e socamos a mesa do bar. E se te oferecessem pagamento em Euros, pra fazer o mesmo trabalho que tu exerce hoje, agora, aqui no Brasil?

No lugar da empatia, os potenciais ídolos do povo, que poderia vê-los como gente como a gente, recebem julgamentos morais que não impomos a outras pessoas de “nível social” mais elevado.

Vemos jogadores de futebol como ricos enfastiados, que afirmam que chutar uma bola é trabalhar, vejam só! Mas na infância, antes de sonhar em ser bombeiro ou astronauta, o que a gente queria ser mesmo?